domingo, 26 de junho de 2011

A história do movimento negro contada por jornais e revistas






Publicações do começo do século passado dedicadas à defesa dos negros podem ser acessadas pelo site do Arquivo Público de SP

Quem quiser saber mais sobre a história do movimento negro no Brasil pode acessar o site do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Ali estão disponíveis para consulta 23 títulos de jornais e revistas publicados por representantes do movimento negro nas primeiras décadas do século 20. As prioridades são as que perduram até hoje; ou seja, o combate ao preconceito e a afirmação social da população negra.

Entre estes periódicos está o jornal A Voz da Raça, da Frente Negra Brasileira. A publicação, cuja origem data de 1933, circulou até 1937, com 70 edições. Outra leitura disponível é a Quilombo (1950), revista que tinha a função de articular e divulgar a Convenção Nacional do Negro Brasileiro. Jornais e revistas também divulgavam eventos do dia a dia da população negra, tais como festas, bailes, concursos de poesia e beleza e que raramente apareciam nos veículos da chamada grande imprensa.









Para acesso aos documentos há dois caminhos (jornais e revistas): http://www.arquivoestado.sp.gov.br/jornais.php http://www.arquivoestado.sp.gov.br/a_revistas.php









Paz para as Avós da Praça de Maio







Longa jornada: avós de maio seguem na busca por filhos e netos desaparecidos na ditadura argentina




Elas buscaram – e continuam buscar - por seus filhos e netos, vítimas da ditadura argentina. E agora podem, merecidamente, ver seu trabalho reconhecido pelo prêmio Nobel da Paz; candidatura foi lançada na última quinta

As avós da Praça de Maio, na Argentina, poderão concorrer ao Prêmio Nobel da Paz. A apresentação da candidatura foi lançada na última semana pela ONG ´Avós com a Paz´com o intuito de que seja reconhecida a luta destas mulheres para encontrar os filhos assassinados durante a ditadura naquele país (976-1983) ou, como vem acontecendo, para pelo menos poder abraçar seus netos, muitos deles adotados ainda bebês por representantes do mesmo regime que assassinou seus pais.
Na cerimônia de lançamento da candidatura esteve presente a presidente das "Avós", Estela de Carlotto, assim como uma das netas resgatadas das mãos da família do militar que a roubou após assassinar seus pais, Victoria Montenegro. Estela disse que o Nobel seria uma "grande alegria", mas o melhor prêmio são mesmo cada um dos 103 netos já encontrados, embora ainda falte localizar outros 400.
"A tarefa é difícil e com toda certeza, quando todos forem localizados, nós já não estaremos aqui para vê-lo, mas deixaremos o testemunho aos nossos outros filhos e netos porque isto é uma luta coletiva", afirmou. Para ajudar no trabalho, as avós criaram o Banco Nacional de Dados Genéticos, onde estão armazenadas as amostras de sangue de todas as avós de crianças desaparecidas, para permitir a investigação dos casos que surgirem no futuro, inclusive após a morte delas. Estela, de 80 anos, continua à procura de seu neto, que neste completaria 33 anos e a quem sua filha Laura, assassinada pelos militares, batizou como Guido. Uma busca que, é fácil saber, não vai cessar até sua morte. "Nós avós, cada vez estamos mais velhinhas, mas, embora caminhemos devagar, o coração e a cabeça estão fortes. A tenacidade de uma avó ou de uma mãe não se perde com o passar dos anos", garantiu.
Os netos já localizados abrem espaço para a esperança no coração destas mulheres. É o caso de Victoria Montenegro, que conheceu o que aconteceu com seus pais biológicos já na idade adulta. Victoria nasceu em 31 de janeiro de 1976. Treze dias depois do sequestro de seus pais, e posterior assassinato, ela foi adotada por um coronel do Exército - o mesmo que ordenou a morte de seus pais. Segundo contou na última quinta-feira, o pai adotivo a fez acreditar que o tema dos desaparecidos era uma farsa e que as Avós da Praça de Maio eram "velhas loucas que queriam destruir sua família cristã".
A verdade sobre sua origem só chegou aos 25 anos. "Graças às Avós a memória dos meus pais continua viva, apesar da existência de um regime horrível que tentou eliminá-los para sempre. A elas devemos o que somos", afirmou. A ditadura militar da Argentina resultou no desaparecimento de mais de 30 mil pessoas. Quinhentas crianças foram sequestradas ou nasceram no cativeiro de seus pais.
Para conhecer melhor o trabalho das Avós acesse www.abuelas.org.ar


Leia em Eu Conto o texto Alvo Anoitecer, sobre uma avó muito especial

domingo, 19 de junho de 2011

Sigilo eterno. A história de um País pode ser enterrada?




Negar o acesso à informação histórica é ferir de morte a construção da identidade nacional

O Brasil discutiu na última semana a questão do “sigilo eterno” para documentos que contam parte da história do País. Para o ex-presidente da República e senador José Sarney (PMDB-AP) o Brasil não deve “abrir feridas” ao revelar todo o seu passado, mas tornar públicos apenas os documentos “mais recentes”. A ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) também afirmou que a presidente Dilma Rousseff quer manter a possibilidade do sigilo eterno no projeto que trata do acesso a informações públicas.

Pela legislação atual, documentos públicos classificados como ultrassecretos ficam em sigilo por até 30 anos, mas o prazo pode ser renovado indefinidamente. Caso o projeto que tramita no Senado seja aprovado, o máximo de sigilo para qualquer documento público será de 50 anos. Pela nova regra, os papéis ficarão longe do público se forem reservados (5 anos), secretos (15 anos) e ultrassecretos (25 anos) --neste caso é permitida uma renovação por igual período.

O projeto fixa o conceito de que os cidadãos devem ter acesso a tudo o que é produzido na esfera pública, e haverá prazo fixo para fornecer qualquer documento produzido pelos três Poderes. E você, é a favor da manutenção do “sigilo eterno”? Será que a história pode simplesmente ser enterrada, como se os fatos nunca tivessem existido? Que tipo de ensinamento seria esse – o do esquecimento?

Por essas e outras, vale lembrar versos da Cancíon por La Unidad Latino americana, de Pablo Milanés e Chico Buarque, aquela mesma que avisa que a história atropela indiferente todo aquele que a nega: Quem vai impedir que a chama/ Saia iluminando o cenário/Saia incendiando o plenário/ Saia inventando outra trama?/ Quem vai evitar que os ventos/Batam portas mal fechadas/Revirem terras mal socadas/ E espalhem nossos lamentos? E enfim quem paga o pesar/ Do tempo que se gastou/ De las vidas que costó/ De las que puede costar? (...) Ouça em Canções, Vídeos e Mais.

Acervo Brasil Nunca Mais é repatriado para o Brasil








Iniciativa de religiosos iniciada no período da ditadura militar brasileira reúne um milhão de fotocópias de processos do STM e poderá ser consultada pela internet


A semana que passou marcou o repatriamento do acervo Brasil: Nunca Mais, projeto desenvolvido clandestinamente no período da ditadura militar brasileira (entre 1979 e 1985) sob coordenação dos religiosos de São Paulo Dom Paulo Evaristo Arns (à época arcebispo) e Jaime Wright, pastor presbiteriano. O acervo, que reúne um milhão de fotocópias de 707 processos do Superior Tribunal Militar (STM) e revela a extensão da repressão política daquelas décadas, foi enviado pelo arcebispo ao Conselho Mundial das Igrejas (CMI) nos Estados Unidos como medida de segurança e agora finalmente retorna ao Brasil. O conteúdo deverá em breve ficar disponível na internet, pela página do Arquivo Público do Estado de São Paulo.
Dom Paulo também é autor do livro Brasil: Nunca Mais, que traz relatos sobre a violência do período e nomes de envolvidos em casos de torturas. Na ocasião em que desenvolviam o projeto, os religiosos ficaram sabendo que os processos da Justiça Militar poderiam ficar até 24 horas com advogados dos envolvidos e realizaram fotocópias dos documentos, enviados aos EUA por precaução. Um kit dessas cópias chegou a ser colocado para pesquisa na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 1988, mas parte das páginas de alguns processos desapareceram, principalmente as que continham nomes de torturadores.
O projeto de repatriamento é resultado de seis anos de trabalho. São 543 rolos de microfilmes, cuja impressão totaliza 12 volumes de 6 mil páginas. O projeto Brasil Nunca Mais Digital é iniciativa do Ministério Público Federal, Armazém Memória e do Arquivo Público do Estado de São Paulo, com o apoio do Arquivo Nacional, da OAB/RJ, do Center for Research Libraries (EUA), do Conselho Mundial de Igrejas (Suíça) e do Instituto de Políticas Relacionais.
Para mais informações acesse o site oficial do projeto: http://www.prr3.mpf.gov.br/bnmdigital




Já o livro Brasil: Nunca Mais está na 37ª edição. Lançado em 15 de julho de 1985, foi reimpresso mais de 20 vezes nos dois primeiros anos. Para os representantes de entidades ligadas aos direitos humanos presentes na solenidade que marcou o repatriamento dos documentos, no último dia 14 em São Paulo, o acesso ao arquivo é passo fundamental para que as novas gerações possam ter conhecimento desse obscuro período, apropriadamente batizado de “anos de chumbo”.
Embora o ano de 1985 seja considerado como o que encerrou o período militar no Brasil, pouca gente sabe que a espionagem de agentes de antigo Deops continuou ativa em pleno retorno democrático, como se pode ler na matéria abaixo. O arquivo do Deops, inclusive, também está disponível para consulta no Arquivo Público do Estado de SP que, além da página na internet, possui boa estrutura para pesquisas em seu espaço físico, à avenida Cruzeiro do Sul 1777, de terça a sábado – fone 2089-8100 ramal 8151.

A ditadura inconformada

Por Maria Angélica Ferrasoli (*)


Como espiões do extinto Deops, infiltrados no governo de SP, continuaram a perseguir lideranças sindicais, políticas, instituições e entidades em plena democracia.

Uma assembleia de trabalhadores vigiada, um espião infiltrado num curso sindical, agentes da polícia se passando por estudantes. Assim descritas, as situações logo remetem ao longo período da ditadura militar brasileira (1964-1985), mas, sabe-se agora, se fizeram presentes também nos anos de redemocratização e na primeira década da democracia no país. O agravante é que esta espionagem, ocorrida de 1983 a 1999, foi protagonizada não pelo terrível Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops), o principal órgão de repressão então extinto, mas sim por um aparentemente inofensivo e burocrático serviço de “comunicação social” da Polícia Civil de São Paulo. É o que revela, 27 anos depois, o arquivo da antiga Divisão Policial de Informações Sociais do Departamento de Comunicação Social (DIS/DCS) da Polícia Civil do Estado de São Paulo, composto por 1.220 pastas de dossiês pessoais e temáticos, 52.172 fichas remissivas e, desde o final de março, aberto à consulta no Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Na mira dos arapongas, alguns identificados como ex-integrantes do Deops (até mesmo a forma de arquivamento dos papéis é semelhante), estão os “suspeitos de sempre” e outros inexplicáveis, entre autoridades públicas, partidos políticos, artistas, faculdades, entidades religiosas e dezenas de sindicatos e seus representantes. Para o coordenador do Arquivo Público e professor de História da USP, Carlos Bacellar, houve evidentemente um desvio de função no papel do DCS. “Apesar do fim do Deops, a espionagem continuou dentro do Estado. Não se sabe quem o fazia nem para quem ou para quê, mas pela documentação se percebe que o nível de conhecimento chega até o secretário”, aponta.

Instalado em 1983, quando o governador eleito Franco Montoro assumiu o posto, o DCS chegou a vigiar inclusive seu criador, e até que sua atuação enviesada fosse descoberta e encerrada por Mário Covas, em 1999, passaram pela chefia da Segurança Pública do Estado nada menos que 14 secretários. Muito do material que integra o acervo – ao menos 50% – é composto por clippings (recortes) de jornais, sendo a outra metade relatórios das investigações. Em geral, os agentes do DCS assinavam em código (são os “Gama”, seguidos de numeração), mas nos casos em que o material é enviado por delegacias de outras regiões há assinaturas nominais. Entre os que respondem pelo DIS/DCS, pelo menos dois – o delegado Clyde Gaia da Costa e o diretor Sylvio Pereira Machado – estão na lista de integrantes do Deops citados pelo grupo Tortura Nunca Mais, que luta pelo esclarecimento das circunstâncias de morte e desaparecimento de militantes políticos durante o regime militar.

“A questão é que, enquanto o Deops vigiava oficialmente o clandestino, o subversivo, no DCS esse papel se inverte, há uma ação clandestina do órgão sobre fatos abertos, públicos. E coisas que não fazem sentido – por exemplo, investigar um show do Axl Rose, ou, ao lado de artistas já vigiados anteriormente – Chico Buarque, Plínio Marcos, o ator Alexandre Frota, “envolvido numa briga”, compara o coordenador do Arquivo, lembrando que há toneladas de outros papéis dentro da estrutura da polícia aos quais ainda não se tem acesso e que “apenas pesquisas futuras poderão revelar mais”. O acervo também traz curiosidades como a vigilância no Instituto Metodista de Ensino Superior, de São Bernardo, faculdade que na década de 80 reunia professores engajados na luta contra a ditadura militar e estudantes que acompanhavam de perto as grandes greves e lutas sindicais da região, além do movimento pró-eleições diretas; capciosos ofícios escritos pelo então prefeito Jânio Quadros e até mesmo curiosas “reflexões” de agentes, como as que integram relato de uma investigação feita pela delegacia seccional do ABCD sobre o então líder metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva em julho de 1983: “Quanto ao prestígio político de ‘Lula’, podemos afirmar que na atualidade não possue (sic) o mesmo carisma que tinha no período de 1979 e 1980 (....) Não é bom político e não tem acessores (sic) de visão, pois o deixaram lançar a candidatura a governador, sendo que nunca poderia se eleger, ao passo que ganharia fácil uma cadeira na Câmara Federal ou Estadual...”.

Movimento social e sindicatos

Outros temas de relevância na papelada do DCS são as Diretas-Já, inclusive com fotos produzidas pelos espiões e esclarecimentos sobre locais liberados para os comícios, convocação e repercussão de greves, e a preparação e desenvolvimento do I Conclat, o Congresso da Classe Trabalhadora, realizado no Pavilhão Vera Cruz, em São Bernardo, no ano de 1983. Entre os muitos sindicatos sob vigilância estão o dos Bancários de São Paulo, Associação dos Professores do Estado de São Paulo (Apeoesp), Metalúrgicos do ABC. Deste último, foi arquivado até mesmo documento com papel timbrado da entidade, o que demonstra o grau de infiltração do agente. Em outro relato, dez anos depois do Conclat, um investigador acompanha, provavelmente como aluno, curso sobre organização no local de trabalho ministrado pelo Smabc em Diadema. Já nos Bancários de São Paulo, além da descrição da assembleia que avalia uma greve geral no ano de 1991, o agente Gama 41 da DIS/DCS faz a listagem da frota de veículos ali estacionados, com a respectiva informação sobre modelos e placas dos automóveis.

Em muitas das fichas dos sindicalistas vigiados pelos agentes estão dados pessoais como filiação, moradia, número de RG, profissão. É curioso lembrar que, muitas vezes, no estádio de Vila Euclides, Lula pedia para que fosse repetida a decisão das assembleias, acrescentando, ironicamente, que era para os espiões poderem anotar a informação completa. Além de Lula, estão fichados no DCS os metalúrgicos Vicentinho e Heiguiberto Della Bella Navarro, o Guiba. Entre os bancários de São Paulo, os ex-presidentes da entidade Luiz Gushiken e Ricardo Berzoini.

“Olha, que tudo era vigiado constantemente eu sabia, sabia que havia informantes nas assembleias. Mas não tinha dimensão do quanto, de como era ostensiva e profunda essa vigilância”, afirma Guiba, que recentemente foi buscar informações sobre a espionagem em Brasília, já que pretende reivindicar a indenização prevista para os que sofreram perseguição política na ditadura militar. “Agora, assusta muito mais saber que a própria polícia que pensávamos ser da democracia também nos vigiava”, destaca. Para Guiba, tanto aqueles que oficialmente fizeram parte dos órgãos de repressão na ditadura quanto esses novos casos de espionagem enfim revelados devem ser julgados e punidos. “Toda essa gente estava prestando um desserviço à nação”, avalia.

A apuração de responsabilidades, por constituir clara ilegalidade e violação à democracia – além, obviamente, do uso do dinheiro público – também é defendida por Ricardo Berzoini, que viria a se tornar ministro no governo Lula e deputado federal pelo PT. “Nos anos 80, 90, havia uma forte infiltração policial nos sindicatos, muitas vezes detectávamos a presença de pessoas estranhas nos locais de encontro, assembleias. Mas até onde se tinha conhecimento eram pessoas da P2 (o serviço reservado da Polícia Militar) e da PF. Nunca tivemos informações sobre vigilância da Polícia Civil”, afirma. Para o deputado, é realmente incrível que isso tenha ocorrido já no governo democrático de Franco Montoro e se estendido por tantos anos. “Conhecendo o Montoro como conheci tenho certeza de que ele não concordaria com esse tipo de procedimento”, afirma, acrescentando que é necessário um levantamento para que sejam detectados os responsáveis pela ação no DCS. “O triste é que esse veio autoritário parece que não acaba nunca”, lamenta, fazendo coro com o coordenador do Arquivo do Estado. “É a ideia da perseguição (do governo militar), de ver a sociedade como inimiga”, avalia Bacellar.

Consultas
Criado em 1924, o Deops foi extinto por decreto em 6 de março de 1983, pelo então governador José Maria Marin, que substituía o biônico Paulo Maluf, afastado para disputar as eleições na Câmara Federal. Nove dias depois, ainda sob esta cultura da espionagem, Montoro assumiu o governo de São Paulo. Na turbulência daqueles anos, em que a democracia apenas engatinhava, muitos documentos importantes para recontar a história do país simplesmente foram varridos para debaixo do tapete e desapareceram. No caso DIS/DCS, a documentação ficava num arquivo de acesso restrito no prédio onde funcionava o órgão, no Palácio da Polícia, bairro da Luz.

Desde 1999, quando Mário Covas ordenou sua transferência, o acervo passou para o Arquivo Público do Estado, recebendo tratamento de conservação e análise. A identificação da lógica de organização do material demonstrou semelhança com a adotada pelo Deops: fichas remissivas e códigos numéricos e alfanuméricos para identificar e localizar os papéis. Só no último 26 de março, porém, o acesso à consulta foi liberado, com a publicação de resolução no Diário Oficial do Estado. No Arquivo também é possível consultar a documentação do Deops, atualmente a mais procurada pelos pesquisadores. As consultas, gratuitas, podem ser feitas de terça a sábado das 9h às 17h, sendo 16h o horário-limite para solicitação de material. O Arquivo Público do Estado fica na Avenida Cruzeiro do Sul, 1.777, em Santana, ao lado da estação Tietê do metrô (fone 2089-8100).


Os ofícios de Jânio
Um risível mau humor autoritário e o estilo peculiar de expressão de JQ podem ser conferidos no acervo do DCS
Quem conheceu a verve do ex-presidente da República Jânio da Silva Quadros poderá se deleitar nas pesquisas do acervo do DCS. Muito além do “fi-lo porque qui-lo”, o homem deposto pelas “forças ocultas” e que “desinfetou” a cadeira para afastar o perigo das “nádegas impróprias” do então concorrente à prefeitura de SP, Fernando Henrique Cardoso, dá um show de autoritarismo com seu peculiar estilo, em comunicados oficiais enviados a autoridades como o governador Franco Montoro e o secretário de Segurança Pública Eduardo Muylaert Antunes.

Para Montoro, em 24 de fevereiro de 1987, JQ começa já atacando: “Leio, nos jornais de hoje, uma notícia estúpida”, e relata que “determinado vereador do PT estaria concitando o público a não pagar tarifas da CMTC e empresas permissionárias”, o que, entende, constituiria crime. Em seguida cobra: “Confio em que vossa excelência, autoridade responsável pela ordem e lei neste Estado, não permitirá este atentado”. No comunicado a Muylaert, o assunto é o anúncio de uma greve na CMTC. “Solicito de vossa excelência que esteja convenientemente preparado para que os transportes públicos não sofram colapso no dia 1 de setembro próximo”, avisa. Era o ano de 1986, e ele pede a cessão – como diz já ter pedido a ministros e seus comandos em São Paulo – de todos os motoristas possíveis (grifo do documento), para evitar a paralisação.

Na mesma ocasião, e ainda por causa da greve nos transportes, pega pesado no ofício endereçado a Jether Abreu, da CMTC. “Há rumores de greve na Companhia. Que não aconteça. Processo todos os grevistas, para despedi-los, e recorro à Polícia Militar, aos Bombeiros e às Forças Armadas para dirigir os veículos. (...) Minha reação será igual à dos estagiários da CET: processo e despedida decorrente (...) Repito-o: se desejarem os antigos e leais servidores da Companhia, pelo menos, um abono de Natal e uma melhoria salarial para o próximo ano, que viajem comigo para Brasília. Lá está a sede do poder e a chave do cofre. Não se enganem”, ameaça Jânio.

O caso Metodista
Faculdade foi vigiada durante três anos, com especial atenção a 1984, quando estudantes invadiram a reitoria

Da mesma forma que os sindicalistas, também os estudantes do então Instituto Metodista de Ensino Superior, em São Bernardo – em especial os do curso de Jornalismo – comentavam, na década de 1980, uma possível vigilância no campus. A preocupação, porém, não ia além de um ou outro boato, já que para a maioria daqueles alunos a ditadura era coisa do passado. A volta dos exilados, as grandes assembleias no estádio de Vila Euclides, a fundação do PT e os comícios pelas Diretas-Já: esse, sim, era o presente daquela geração, distante de vivenciar na pele o trauma das torturas e barbáries dos militares. O fato, porém, é que a Metodista também foi alvo dos arapongas do DCS. Entre os documentos, de 1984 a 1987, estão citações de uma palestra que teria sido feita pelo professor Armando Azzari, na qual ele teria atacado “o sistema governamental de maneira injuriosa”, e a invasão da reitoria em março de 1984.

“Conf. B.O. 324/84 – 2º. DP-SBC e Inf. nº.362/84 DCS/DIS; no dia 12/03 p.p, às 21:00hs., alunos da Fac. de Com. do nominado invadiram a Reitoria e ali se instalaram em forma de alojamento, após haverem iniciado um movimento de greve, motivado pela demissão do prof. Armando Azzari, da Fac. De Comunicação. O reitor ingressará hoje, 13/03, com um pedido de reintegração de posse, na Justiça (17-P-1-248)”, lista uma das anotações da ficha da entidade – quem participou da invasão, porém, lembra que as reivindicações iam além da reintegração do docente, já falecido. Além desse informe, há outros dois oriundos de investigação do próprio DCS e de documento reservado da “Sec. Pol. do ABCD”, mas este último, por exemplo, não tem pasta correspondente para consulta. As demais anotações da ficha (outras quatro) são clippings de jornais sobre a paralisação de 1984 e um protesto contra o aumento das mensalidades em 1987.

(*) matéria publicada na revista Fórum em maio de 2010

domingo, 12 de junho de 2011

Salve João Gilberto, salve a Bossa Nova





João Gilberto, genial músico e a melhor tradução da Bossa Nova, fez 80 anos no último 10 de junho. Em homenagem ao moço que azucrinava gatos e vizinhos – a lenda mais corrente e engraçada é de que o gato se suicidou por suas repetidas tentativas de perfeição -, o blog posta Fotografia em Canções, Vídeos e Mais. E deseja vida longa ao baiano de Juazeiro.

Após cem anos, um jovem Teatro Municipal














Teatro Municipal de SP é reinaugurado após nova reforma; em 12 de setembro de 1911, sua abertura causou o primeiro congestionamento de SP

A reabertura do Teatro Municipal, no último final de semana, é uma oportunidade de viajar pela história de São Paulo a partir de um de um de seus mais belos marcos. Afinal, o teatro completa 100 anos no próximo 12 de setembro e, embora já tenha passado por duas reformas anteriores, só agora, segundo os organizadores, conseguiu recuperar brilho semelhante à inauguração, já que detalhes de seu acabamento, apagados pelo tempo, puderam ser restaurados.

O Municipal foi idealizado nos moldes dos melhores teatros do mundo para atender principalmente à ópera, a primeira forma artística e de lazer típica da burguesia e em virtude do grande número de italianos que viviam em São Paulo. Para criá-lo, a Câmara Municipal desapropriou, em 1903, o terreno do Morro do Chá. Cláudio Rossi foi o autor do projeto; Domiziano Rossi fez os desenhos e Ramos de Azevedo foi o responsável pela construção.

Os materiais também foram encomendados pelo escritório Ramos de Azevedo, em vários países. A armadura de ferro teria vindo de Düsseldorf, o ferro artístico em Frankfurt (ambas na Alemanha);, o bronze artístico em Berlim, Paris e Milão; os mosaicos vieram de Veneza, os mosaicos de paviment, de Nova York e Berlim e os mármores de Siena, Verona e Carrara, na Itália.

Após a reforma, os 1,5 mil lugares foram mantidos, com acréscimo de seis assentos para obesos e quatro lugares para cadeirantes. O palco foi o único a passar por uma mudança mais intensa, para modernização. Segundo Lilian Jaha, arquiteta do Teatro Municipal, as paredes do fosso – onde costuma ser instalada a orquestra – recebeu inclinação para melhorar o retorno do som para o palco.

A iluminação e a infraestrutura do palco também passaram por reforma. Os espetáculos a serem apresentados no teatro contarão com um sistema computadorizado de som e terão mais liberdade no cenário graças ao reforço de varas que aguentam até 900 kg. A capacidade das anteriores era de até 200 kg. A programação da temporada 2011 do Teatro Municipal de São Paulo já foi divulgada e pode ser consultada no site do teatro.


Brilho e fotografias a magnésio - Sua inauguração, segundo jornais da época, deu origem ao primeiro congestionamento de SP, com mais de cem carros. A abertura, com a ópera Hamlet, de Ambrósio Thomas, é descrita pelo jornal Gazeta Artística: "Esteve deslumbrante a inauguração do Teatro Municipal pela companhia do barítono Titta Ruffo. Desde que anoiteceu o teatro ficou interior e exteriormente iluminado. Nas vizinhanças via-se numeroso público, carros e automóveis, com pessoas da melhor sociedade, que admiravam o belíssimo panorama. O Viaduto estava repleto. Pouco depois das 20 horas começaram a chegar os espectadores, todos em traje de rigor. A apresentação terminou às 12 horas e 25 minutos da noite, no meio ao grande entusiasmo do público. No interior do teatro foram distribuídas riquíssimas 'plaquettes', contendo a descrição e o histórico do teatro até sua inauguração. Durante o espetáculo foram tiradas muitas fotografias a magnésio. No jardim permaneceram numerosas famílias até tarde da noite".


Em 1922, o teatro sediou a Semana de Arte Moderna, que revolucionou o panorama artístico brasileiro. Desde sua inauguração, o Municipal foi palco para artistas nacionais e internacionais, como os cantores líricos Enrico Caruso e Maria Callas, as bailarinas Isadora Duncan e Anna Pavlowa, os dançarinos Nijinski e Baryshnikov, as atrizes Itália Fausta e Clara Della Guardia e os músicos Ravi Shankar e Duke Ellington. "Seu efeito simbólico arquitetônico e urbanístico externo se equiparava ao prodigioso poder de catalisação cultural que emanava internamente do seu palco. Nesse sentido, o teatro atuava como uma caixa de emissão e repercussão de símbolos em igual", analisou o historiador Nicolau Sevcenko.

Foto: Teatro Municipal,1920/Divulgação

Ciclo de palestras discute a região do Grande ABC
























Entre os temas estão os patrimônios cultural e ambiental e a ferrovia São Paulo Railway (foto)

Depois do congresso realizado em Diadema no final de maio, um novo ciclo de debates sobre a história da região acontece em São Caetano, dessa vez abordando temas como os patrimônio cultural e ambiental, ferrovia São Paulo Railway e a formação de uma comunidade imaginária no Grande ABC.
As inscrições para participar das palestras podem ser feitas até dia 21 de junho, pelo e-mail fpm@fpm.org.br, informando e-mail e telefone de contato. Entre os estudiosos presentes estarão os professores Renato Dotta, Maurício Piqueira, Mariana Cristofi e Palmira Petratti.

domingo, 5 de junho de 2011

Depois daquela quermesse



Muito populares entre os jovens em meados do século passado, festas deram origem a amores que sobrevivem até hoje




Na foto, Vilma e José na época em que começaram a namorar em uma quermesse e cujo casamento completa Bodas de Ouro neste ano



Paçoca, chapéu de palha, milho assado, quentão . E, pra aquecer ainda mais corpo e coração, um belo par de olhos – promessa de namoro ou amor da vida inteira. Pois é. Para muito além das quadrilhas e das bochechas coradas de frio ou rouge (que ainda não era blush), as quermesses foram responsáveis pelo encontro de muitos casais nas décadas de 1950 e 1960. Eventos disputadíssimos pelos brotinhos de então, as festas dedicadas aos santos (entre eles o casamenteiro Antônio) eram esperadas por uma juventude acostumada ao footing das pracinhas e aos elegantes cinemas de bairro – oportunidade única para deixar vir à tona o espírito caipira tão enraizado e, mais ainda, sua contagiante alegria.

Foi numa dessas quermesses do passado – mais precisamente no ano de 1959 – que a operária Vilma encontrou o operário José. Eles viviam em São Caetano do Sul, cidade do ABC paulista, região que passava por grande crescimento industrial e atraía migrantes de vários pontos do País – inclusive do interior do Estado, caso dos dois. Vilma trabalhava na Cerâmica Santa Maria, que ficava na rua Wenceslau Brás. Ali, tinha conhecido uma das irmãs de José e, embora já tivesse visto o moço algumas vezes, nenhum dos dois tinha tido coragem de se aproximar. Naquele junho, como era tradicional, a cidade realizava uma grande quermesse na rua Manoel Coelho – justamente entre a avenida Goiás e onde hoje se localiza o shopping São Caetano, em área atualmente ocupada por um estacionamento. “Tinha pastel, pipoca, barraquinhas, música pelo alto-falante. Ele estava lá com os colegas, veio conversar e perguntou: ´Quer namorar comigo?´. ´Vou pensar´, respondi, porque naquele tempo era assim, não dava pra responder na hora”, conta Vilma Sasso Alonso, hoje com 72 anos e cujo casamento com José completa Bodas de Ouro no final deste ano.

José, que era metalúrgico na Laminação Nacional, em Utinga, Santo André, se recorda também das músicas que embalavam as quermesses. Não se restringiam às típicas, de quadrilha – pelos alto-falantes vinham sucessos da época e esperadas e românticas dedicatórias. “Lembro muito bem que tocava Boneca Cobiçada”, conta. As noites de sereno evocadas na música acompanharam o casal por todos os meses de junho dos anos seguintes, e não foram poucas as quermesses das quais participaram como namorados e, após 1961, já casados. Com uma única filha, o casal voltou a frequentar as quermesses com assiduidade quatro décadas depois daquela que marcou seu inesquecível encontro, dessa vez unidos por um objetivo tão ou mais afetivo: ver dançar a caipirinha Beatriz, neta que neste junho completa 19 anos.

Mais de 200 quilômetros distante da paulista São Caetano, a cidade mineira de Poços de Caldas também reunia seus jovens nas festanças e arraiás. Não necessariamente eram comemorações juninas: as igrejas aproveitavam as datas dos santos padroeiros para organizar quermesses. A jovem Dirce, vigiada de perto pela avó, que só consentia passeios se estivessem vinculados a atividades religiosas, ajudava numa das barraquinhas quando começou o flerte com Victor. Era 1957, festa da Igreja de Nossa Senhora Aparecida: “Eu trabalhava na loja de doces Mesquita e já tinha visto o Victor algumas vezes. Mas foi nesse dia que o primo dele, o Zequinha, nos aproximou, e logo começamos a namorar”, relembra Dirce, 71 anos. Foi também numa quermesse, mais adiante, que a avó os flagrou juntinhos. “Fazia muito frio e eu usava o cachecol dele. Minha avó nos viu e achou um absurdo, dizendo que moça direita não fazia essas coisas”, relata.

A saída foi Victor procurar a família da moça e oficializar o namoro. Apesar das muitas restrições – vigilância em casa e nas saídas do casal – eles puderam participar de várias outras quermesses e passeios. O circuito extrarreligioso, nada apreciado pela avó, incluía os cines São Luiz e Vogue (palco também de shows, como o de Nelson Gonçalves, lembrado por Dirce) e os bailes no Country Club. Victor Geraldo e Dirce dos Santos, que se casaram em 1961 e vieram para São Paulo poucos anos depois, construíram suas carreiras como garçom e auxiliar de enfermagem. Hoje aposentados, comemoraram Bodas de Ouro em maio passado, ao lado dos três filhos e um casal de netos. Ainda gostam de ir a quermesses, especialmente Dirce que, além das barraquinhas, aprecia a diversão do bingo – talvez só para contrariar aquele velho dito de sorte no amor, azar no jogo.

A origem das festas juninas

Celebrações dos povos primitivos em agradecimento pela boa colheita deram início à tradição

Por Maria Angélica Ferrasoli (*)

Você dá o braço a sua parceira de quadrilha e vê nela a deusa Juno. Rodopia um pouco e lá estão povos primitivos como os celtas dançando em volta de uma árvore enfeitada, qual mastro de São João. O casamenteiro Antônio parece indeciso entre uma boa pamonha e a apetitosa sardinha assada à portuguesa, com certeza. É, você ainda nem chegou perto do quentão, mas o mundo todo parece estar ali, infinitamente pequeno e próximo, com múltiplas épocas e culturas entrelaçadas nos passos da dança. Tudo isso – e muito mais – faz parte da festa junina.
Embora hoje nas grandes cidades as comemorações de junho muitas vezes se limitem a uma ou outra quermesse, não raro embaladas pela música da moda, a história dessas festas, originalmente pagãs e depois adaptadas pelo cristianismo, é quase tão saborosa quanto sua gastronomia. Tentar desvendar o novelo que leva até seu início proporciona uma verdadeira viagem no tempo: o ponto de partida é o remoto momento em que o homem agradece aos deuses a fertilidade da terra e a boa colheita, louvando-os para que a fartura prossiga e oferecendo, em troca, suas oferendas. Ao redor da fogueira, como continuaria a fazer milhares de anos depois, dançava.
O que junho tem a ver com isso? “O mês coincide com a época da colheita no Hemisfério Norte, que lá é justamente entre o final da primavera e início do verão”, explica o jornalista Carlos Felipe Melo Marques Horta, professor da PUC-MG e autor de vários livros sobre folclore, entre eles Quadrilha: Teatro, Poema e Dança, que aborda o tema das festas juninas e integra iniciativa de sucesso para revitalização destas tradições em conjunto com a prefeitura de Belo Horizonte. Foi no império romano, porém, que as festas da fertilidade passaram a se chamar Junônias, em homenagem à toda-poderosa deusa Juno (Hera, mitologia grega), celebrada em junho. Mulher de Júpiter, Juno é o símbolo máximo do amor conjugal, da fidelidade e, não por coincidência, da fertilidade.
Esclarecidas as visões da deusa a seu lado e dos alegres celtas, restam os santos. Eles entram em cena com a expansão do cristianismo na Europa e sua missão de erradicar tradições pagãs milenares, substituindo a cultura plural de deuses pela monoteísta. Muitos rituais, porém, são incorporados à fé cristã. As Junônias permanecem, adaptadas. Já não se celebra Juno pela boa colheita, mas alguns dos santos cristãos relacionados ao mês, seja pela data de morte ou associação similar (29 de junho, por exemplo, dia de São Pedro e São Paulo, teria sido escolhido por ser o antigo dia da festa de Rômulo e Remo, considerados fundadores de Roma). Com a veneração aos santos, surgem atribuições específicas, como a do casamenteiro Antônio; Pedro, protetor dos pescadores e das viúvas (era filho de uma), e João, primo de Cristo, cuja festança no Brasil é a grande atração turística de cidades nordestinas como Caruaru, Campina Grande e Petrolina, entre muitas outras.
“Santo Antônio certa vez teria intercedido numa briga de casais e salvado o casamento. Vem daí sua fama. Já São Pedro, além dos pescadores, protege os lares”, explica frei Severino, do convento de São Francisco, em São Paulo. O frei, que passou anos de seminário no Sul, lembra que na região celebra-se também São Paulo (assim como Pedro, um dos pilares da igreja católica), e que, durante as festas de São João, ele e outros seminaristas caminhavam descalços sobre as brasas da fogueira. “Assim como algumas tradições permanecem sem que saibamos o motivo que as originou, também não existe uma explicação científica para a fé”, ressalta.
As pistas, porém, vêm de diferentes caminhos, e surpreendem pela simplicidade. A fogueira e o mastro que caracterizam o São João, por exemplo, teriam origem em seu nascimento, quando Isabel, sua mãe, os utilizou para anunciar a chegada do filho à prima Maria, grávida de Jesus. Sua doce culinária, à base de mel, também tem segredos a degustar. “Utiliza-se muito o mel pelo fato de São João ter se alimentado quase que exclusivamente dele no deserto, quando foi meditar sobre sua conversão”, aponta Hamilton Mellão Jr, hoteleiro, especialista em gastronomia e proprietário do restaurante I Vitelloni, em São Paulo. Ainda sobre as ‘características’ de cada santo, o crítico sugere outras possibilidades, lembrando o primeiro Concílio de Trento (aberto em 1545, para fazer frente à Reforma Protestante) que, de certa forma, resolveu “atribuir qualidades a cada um dos santos, para que durante todos os dias do ano os católicos tivessem bons exemplos a seguir”.
Um imenso Portugal - Um dia, enfim, as festas juninas desembarcaram por aqui, trazidas pelas naus portuguesas. Assim como no Brasil, junho em Lisboa se transforma numa grande comemoração, com a diferença de que, lá, a celebração é ainda maior, sendo tão esperada quanto nosso Carnaval. Como acontece também regionalmente em terras brasileiras, mudam igualmente os quitutes – sardinhas e vinho tinto em lugar de pinhão, pamonha e quentão. “Foram inclusive os portugueses que trouxeram para as festas juninas a celebração de Santo Antônio, depois do século 14. É o santo que a tudo atende, e a devoção que o povo português tem a ele é enorme”, explica o folclorista Horta. Nesse caldo cultural mais denso que canjica, floresceram os cantos de junho, os rituais como o da lavagem dos santos, as crendices e as muitas simpatias, boa parte delas dedicada ao encontro do amor e à conquista do casamento.
É também com a Corte Real portuguesa, associada à chegada de missões francesas ao país, que surge o principal tempero da boa festa junina: a quadrilha. O que se sabe sobre ela com certeza é a origem européia (nas Ilhas Britânicas), onde era praticada como dança de salão. Agora que pelo menos parte do mistério das noites de junho foi desvendado, não deixe por menos. Já que a gente não pode mais ter a beleza dos balões no céu, quase não consegue ver as estrelas por causa da poluição e ainda tem de agüentar quermesse embalada por música de má qualidade, rapte sua Juno para a beira da fogueira mais próxima, saboreie seu merecido quentão e aproveite a festa que trata do amor e da fecundidade. Se precisar, apele para Santo Antônio.

(*) matéria publicada na Revista dos Bancários em 2001, com reedição da autora)